Novembro 12, 2019

Uma viagem pela história dos mercados em Campo de Ourique

Mercados em Campo de Ourique
Crédito: Eduardo Portugal, AML

Durante várias décadas os mercados de Campo de Ourique foram peça fulcral da rotina do bairro, ultrapassando a função de abastecimento e tornando-se centros de convívio social. A distância entre o novo bairro e os mercados existentes na cidade, como o da Ribeira, ou o da Praça da Figueira, obrigava a população de Campo de Ourique a percorrer grandes distâncias, incómodas e muito dispendiosas. O isolamento a que o bairro estava votado desde o seu início, sem vias de comunicação para outras áreas da cidade, agravava as condições em que se realizava o abastecimento dos que aí habitavam.

Campo de Ourique necessitava de um mercado que satisfizesse as necessidades da sua população, facto para o qual a Junta de Freguesia alerta a partir de 1917. Dois anos depois, em 1919, o município comprometia-se a edificar um mercado no bairro. O quarteirão onde hoje se entrecruzam as ruas Correia Teles e Francisco Metrass seria o local escolhido para o mercado, à época ainda por urbanizar, sendo essencialmente terras de cultivo de cereal.

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A Câmara Municipal acabou por não construir este equipamento, e em 1926, um particular, José Dionísio Nobre, avança com uma proposta de construção de um mercado. No ano seguinte o município aprova o projeto, concedendo a Nobre a concessão da exploração do mercado durante 40 anos. José Dionísio Nobre, natural do concelho de Cadaval, chega a Lisboa no início da década de 20, e começa a adquirir em Campo de Ourique diversos lotes de terreno. Nobre acabaria por se tornar um grande empreendedor em Campo de Ourique, sendo o promotor do mercado do bairro, e do primeiro cinema Europa.

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Aquilo que é hoje o Mercado Municipal de Campo de Ourique, começou assim a ser edificado em 1927 num dos terrenos do promotor, entre as ruas Coelho da Rocha, Francisco Metrass e Tenente Ferreira Durão. Durante o período em que decorreu a construção do mercado, José Dionísio Nobre criou um mercado provisório no gaveto entre as ruas Francisco Metrass e Coelho da Rocha. A entrada em funcionamento deste equipamento, a 9 de janeiro de 1927, foi noticiada pelos meios de comunicação social, comprovando-se a sua importância.

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O projeto de autoria do Arquiteto António do Couto Martins opta por criar um edifício simples, mas funcional, perfeitamente enquadrado no traçado pré-existente. Com o mercado criava-se um novo quarteirão no bairro. Em cada uma das ruas que o limitam é projetada uma entrada para o interior do recinto, exceto na fachada Sul, para a Rua Padre Francisco, que à época não estava sequer traçada. A procura da funcionalidade não descurou a estética, garantida através dos apontamentos de cor. As janelas rasgadas ao longo deste enorme retângulo cuidam do arejamento e iluminação do interior, onde existiam 28 lojas, e mais de cem bancas.

Mercado de Campo de Ourique foi inaugurado a 14 de Abril de 1934

A inauguração do mercado teve lugar a 14 de Abril de 1934, tendo a gestão deste equipamento estado nas mãos da família de José Dionísio Nobre até 1973, ano em cessou a concessão passando para a alçada municipal. Nos anos 70, o edifício acusava já a passagem do tempo, necessitando de obras de conservação, modernização e de uma ampliação. Os arquitetos Daniel Santa Rita, Alberto Oliveira e Rosário Vernade foram os responsáveis pela remodelação do Mercado.

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Esta equipa opta por uma ampliação do lado Sul, na qual foi projetada uma nova entrada, confinante com a Rua Padre Francisco. Aqui foi proje tado o setor do peixe, área que não havia sido contemplada no plano inicial. Nesta remodelação sobressaiu a introdução de novos elementos decorativos no exterior, mas no interior foram várias as inovações, destacando-se o agrupamento das bancas e lojas por ramos de atividade, as novas câmaras frigoríficas e a constru ção de instalações de apoio aos vendedores, como vestiários.

No final da primeira década do século XXI, o mercado de Campo de Ourique estava obsoleto. A nova realidade económico-social dominada pelas grandes superfícies comerciais, colocara em segundo plano, este, e outros mercados da capital. Exigia-se para sua sobrevivência, uma remodelação, concluí da em Novembro de 2013, na qual à semelhança de alguns mercados europeus, se conciliou a venda de produtos alimentares com uma área de restauração.

O Mercado dos Prazeres, como também foi designado, inaugura em 1968

Este mercado não foi o único em Campo de Ourique. A conclusão da última fase do projeto de urbanização do bairro, em finais da década de 50, com a abertura das ruas Freitas Gazul e André Brun, acabou por trazer mais habitantes a Campo de Ourique. O mercado existente revelou-se insuficiente para o abastecimento da população. Por outro lado, a presença de vendedores de rua, junto à «Meia-Laranja», onde se vendia essencialmente peixe, preocupava o Município, sobretudo pela falta de condições de higiene. Urgia a construção de um novo mercado para solucionar estas questões e providenciar melhores condições aos vendedores.

A Rua Freitas Gazul, próximo da Estrada dos Prazeres, foi o local escolhido para a construção do novo equipamento, um mercado de levante. O Mercado dos Prazeres, como também foi designado, inaugura em 1968. Este equipamento acabou por ser demolido no final do seculo XX tendo os vendedores sido encaminhados para o mercado principal do bairro.

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Na mesma década, existiu na Praça Afonso do Paço, um outro mercado de levante, que na década de 80 funcionava ainda ao sábado. Durante várias décadas os mercados de Campo de Ourique foram peça fulcral da rotina do bairro, ultrapassando a função de abastecimento, tornando-se centros de convívio social. Os novos padrões de vida acabaram por fazer desaparecer alguns dos mercados, mas elevaram outros, como o de Campo de Ourique, a outra dimensão, na qual se preserva a sua essência e a sua história.

Texto: Susana Maia e Silva Mestre em História da Arte Contemporânea

Fonte: Boletim Informativo da Junta de Freguesia N.º 9 | JUN/JUL/AGO 2018

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