Setembro 19, 2019

Afonso Reis Cabral: “Sempre quis morar em Campo de Ourique”

Afonso Reis Cabral: Sempre quis morar em Campo de Ourique

Aos 24 anos ganhou o Prémio Leya com “O Meu Irmão”, mas escreve desde os nove. Passaram quatro anos, publicou um segundo romance e os críticos não lhe poupam elogios.

O Afonso nasceu e viveu a maior parte da sua vida no Porto…
Não! Nasci em Lisboa, embora por acaso. A família da minha mãe é de Lisboa e os meus pais estavam cá, mas logo a seguir fui para o Porto, onde vivi até entrar para a Faculdade. Nessa altura, quis vir para Lisboa.

Porquê?
Porque era na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas que havia o curso de Literatura que me interessava, por causa dos professores e do próprio plano de curso.

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Veio logo para Campo de Ourique?
Quando cheguei, fui viver para as Amoreiras, para casa da minha avó. Depois, quando comecei a viver sozinho, a minha primeira casa foi ao pé da Calçada das Necessidades e só em março de 2013 consegui vir para Campo de Ourique. Mas sempre quis morar aqui.

De que é que mais gosta no bairro?
Do Jardim da Parada, da vida de bairro, onde pessoas mais velhas e mais novas coabitam em pé de igualdade, da tranquilidade à noite, ótima para passeios, do otimismo (ainda que alguns fechem, estão sempre a abrir novos estabelecimentos como cafés, geladarias, padarias, etc.), do mercado, da biblioteca, da Livraria Ler e, muito importante, da Riba Fóssil, onde paro muitas vezes para olhar para o passado.

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E de que é que não gosta?
É preciso falar do estacionamento? Não haverá ninguém que goste desse aspecto de Campo de Ourique, exceto talvez os que tenham garagem. Aliado aos transportes públicos deficitários, isto faz do bairro um desafio. E falo por mim: a urgência de encontrar um lugar torna as pessoas em selvagens.

Trabalha em casa?
Não. Tenho escritório em Marvila.

Isso é do outro lado da cidade.
Pois é… Mas nesses casos ando de mota.

E vai ao escritório todos os dias?
Faço um horário das nove às seis, como se trabalhasse numa empresa.

Neste momento, escreve a tempo inteiro. Como é um dia normal de trabalho?
Geralmente, reservo a manhã para rever o que escrevi na véspera. Almoço e vou dar um grande passeio a pé, sozinho, enquanto ouço música. Este ritual do passeio é muito importante para mim, tenho muitas ideias durante essas caminhadas, encontro soluções, respostas. Quando volto, sento-me à secretária e começo a escrever até
às seis.

Vamos voltar ao Porto. Como foi a sua infância?
Foi normal…

Normal como? Aos 12 anos foi sozinho para a Alemanha, à boleia num camião TIR…
Ah! Isso…

Como é que se lembrou de uma coisa daquelas?
Para dizer a verdade, não me recordo bem. Talvez tenha ouvido uma conversa qualquer, não sei… Era uma aventura!

E os seus pais, o que é que disseram?
Bem, a minha mãe ficou muito perturbada, quando eu falei no assunto. O meu pai também, mas acho que recuperou mais depressa.

Mas acabou por conseguir convencê-los, porque autorizaram.
Sim.

E a sua família conhecia o motorista que o levou?
Não! Mas foi recomendado por alguém, não sei bem. Lembro-me de ter ido com o meu pai falar com o senhor, para saber se ele estava na disposição de me levar com ele.

Essa sua aventura é extraordinária!
Acha?

“Aos 15 anos publiquei um livro de poesia. Depois, comecei a escrever só prosa”

O que é que aprendeu nessa viagem?
Aprendi duas coisas muito importantes. Aprendi a gerir as saudades e aprendi a conhecer o outro.

Nessa altura, já escrevia?
Já! Comecei a escrever aos nove anos e, até aos 15, escrevi alguma prosa, mas sobretudo poesia. Aos 15 anos publiquei um livro de poesia, “Condensação”. Depois, comecei a escrever só prosa.

“O Meu Irmão”, o romance com que ganhou o prémio Leya, foi o primeiro que escreveu?
Já tinha tentado escrever outros livros, mas sempre sem sucesso. O Meu Irmão foi de facto o primeiro livro que consegui escrever até ao fim.

Quando se candidatou sentia que podia ganhar?
Nem sequer pensei nisso. Estava a escrever o livro desde 2011 e, no início de 2014, pensei que concorrer ao prémio Leya me dava a oportunidade de me impor um prazo para o acabar e, além disso, também era uma garantia de que alguém o leria. É muito difícil conseguir que uma editora leia o nosso primeiro romance.

Mesmo para si, que já nessa altura trabalhava numa editora?
Sim, mesmo para mim. Mas ao concorrer ao prémio, alguém do júri ia ter de ler o meu romance.

O que é que fazia na editora?
Comecei a trabalhar como revisor em 2008. Não gostava muito do que fazia, mas sempre conseguia algum dinheiro para começar a minha independência e tinha contactos com várias editoras em regime de freelance. Depois, em 2014, entrei para a Alêtheia, como editor e, a seguir, passei para a Presença, onde também era editor e coordenava a equipa de revisores. Coordenava cerca de 50 pessoas. Mas eu queria ter tempo para escrever e, por isso, despedi-me e agora sou escritor a tempo inteiro e editor independente para a Imprensa Nacional, bem como consultor editorial para a Gradiva.

E, entretanto, em 2018, publicou “Pão de Açúcar”. Como é que se lembrou de pegar num caso real, o caso Gisberta, que foi assassinada por um grupo de miúdos?
A ideia surgiu-me ao ler uma reportagem da Catarina Marques Rodrigues, no Observador. Eu lembrava-me do caso, era um miúdo quando aconteceu, e aqueles eventos ficaram mais ou menos esquecidos, embora latentes na minha memória. Mas quando li a reportagem, percebi que havia uma ausência naquela história, entre o momento em que três dos rapazes conhecem a Gisberta e a ajudam e o momento em que um grupo maior a mata. E é essa ausência que deixa espaço para a Literatura entrar. O meu romance parte de factos reais, mas é ficção.

Fonte: Boletim Informativo da Junta de Freguesia N.º 10 | JAN A JUL 2019

 

 

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