Junho 27, 2019

João Peste: “As pessoas de Campo de Ourique adoravam os Croix Sainte”

João Peste, vocalista dos históricos Pop Dell’Arte, deu uma longa entrevista à revista Blitz e lá pelo meio falou do nosso bairro Campo de Ourique.

“Às vezes a coragem também é loucura. [Comporta] uma certa irresponsabilidade, porque fiz coisas para as quais não estava totalmente preparado. Houve investimentos grandes, com bandas a gravar em estúdios caros: os discos de Mão Morta ou Pop Dell’Arte foram gravados nos estúdios da Valentim de Carvalho. E conseguiu-se. Fui corajoso no sentido de ter enfrentado os obstáculos, mesmo quando eram aparentemente intransponíveis. Mas não o fiz sozinho, porque tive um grupo de pessoas que me ajudaram, desde a minha sócia, Maria João Serra, que formou a Ama Romanta comigo, à minha irmã, Maria João, ao Zé Pedro Moura, até mesmo ao Adolfo Luxúria Canibal, ao Rafael Toral, ao Nuno Rebelo, e ao Luís San Payo, dos Croix Sainte, uma das bandas que não tiveram disco na Ama Romanta mas que tinha de aparecer na coletânea, porque foram eles a dar o exemplo. Eu era de Campo de Ourique e as pessoas de Campo de Ourique adoravam os Croix Sainte, seguiam-nos e viam os concertos quase todos. [Em 1985] eles lançaram um maxi single, The Life of He, e em vez de procurarem uma major, com os constrangimentos que isso às vezes implica, editaram um disco por si. Um disco de capa verde, com o símbolo da saída. E isso foi muito importante, porque nos fez ver que era possível as bandas, sozinhas, fazerem um disco seu ou juntarem-se todas e fazerem um disco. No fundo, eu fui apenas o elemento catalisador para uma série de bandas se juntarem e gravarem num estúdio de Campo de Ourique, o Musicorde, com o Rui Remígio. Ele era o técnico de som do estúdio. Não nos conhecia de lado nenhum, mas fez um trabalho incrível e aturou-nos durante meses, sempre com uma atitude positiva, quando muitos nos olhavam de cima para baixo. Sempre nos tratou muito bem, o que ajudou a que o produto final fosse o que fosse. Com os seus defeitos, claro, mas estamos a falar dele 30 anos depois. Fomos também corajosos em termos estéticos, porque apostámos em coisas que sabíamos que não iam ter grande impacto comercial, vender ou sequer passar na rádio, como o Nuno Canavarro, o Tó Zé Ferreira, os Telectu ou o Sei Miguel. Nunca fiz isto para ganhar dinheiro, tanto que, quando algumas bandas quiseram abandonar a editora aconteceu com os Mão Morta e os Santa Maria Gasolina em Teu Ventre, entreguei-lhes as fitas pelo preço de custo de estúdio. Sempre tentei pôr as bandas a gravar, a editar, e disponibilizar alguma música que achava importante as pessoas conhecerem. Não só para o público do momento, mas para a posterioridade. Até o facto de, agora, esta compilação ser oferecida com a BLITZ vai ao encontro deste espírito: o nosso objetivo era fazer a música chegar às pessoas. E editar este disco pareceu-me uma excelente maneira de fazer com que a [obra] de uma série de músicos chegasse a pessoas que de outra forma talvez nunca tivessem contacto com ela. Nesse aspeto, é uma edição importante.”

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