Setembro 25, 2018

Campo de Ourique à Lupa

Campo de Ourique é o bairro que melhor resistiu aos efeitos do Grande Terramoto de 1755, que quase destruiu Lisboa. Por isso, servindo de refúgio a populações sobrevivas, tornou-se zona de casas solarengas de fidalgos e burgueses ricos e de povo trabalhador. Data dessa época o nascimento do cemitério dos Prazeres, embora a sua forma definitiva seja apenas atingida na primeira metade do séc. XIX (1835).

Estão ali sepultadas figuras de destaque da aristocracia, das artes, das Estão ali sepultadas figuras de destaque da aristocracia, das artes, das letras, da ciência e da política, sobretudo a partir de 1910, data da Implantação da República. Foi dos quartéis deste bairro, de forte implantação maçónica, que saíram as primeiras tropas para a Rotunda, iniciando a revolução republicana. Este grande e belo cemitério sofreu influência do Pére Lachaise, de Paris, ao qual se assemelha pelas suas grandes alamedas e pelos monumentais jazigos um dos quais, o dos Duques de Palmela, é o maior da Europa, de propriedade privada. Recorde-se que o arquiteto autor do projecto do bairro era de escola francesa e trabalhou muito tempo em Paris, no departamento especializado des Ponts et Chausées.

Muito perto daquele existem mais dois belos cemitérios, o Inglês, sob evocação de St. George, também do séc. XVIII. Ali se encontram sepultadas celebridades como, por exemplo, Fleming, o criador do moderno romance. Integrada na zona das sepulturas e jazigos existe uma bela e espaçosa igreja, de culto anglicano. Deste chamado Quarteirão Inglês faz também parte a residência do reverendo reitor da igreja e, no topo oposto, com uma esplêndida vista sobre o Tejo e o Jardim da Estrela, está o agora encerrado Hospital Inglês, ao lado do qual se situa o Estrela Hall, simpático teatrinho onde uma companhia residente desde há décadas, apresenta espetáculos. Exceto a parte do cemitério que, naturalmente, é intocável, tudo o mais foi recentemente vendido a uma ilustre e rica família capitalista portuguesa. Supõe-se que o espaço seja destinado a construção imobiliária de luxo.

O mesmo sucedeu já ao pequeno palacete vizinho onde viveu e morreu Almeida Garrett e que foi barbaramente destruído por um conhecido político, que ali instalou a sua residência. No local, junto à Estação dos Correios, ocupando a parte central da pequena praceta, um busto de Wellington reforça esta presença do Reino Unido. A poucos metros está o prédio onde viveu e morreu o poeta Fernando Pessoa, hoje adaptado a centro cultural evocativo do autor, onde se organizam eventos em sua memória e onde pode ser consultada parte da sua biblioteca. O corpo do escritor esteve sepultado no cemitério dos Prazeres, mas, atingida a glória, transitou para o Mosteiro dos Jerónimos, onde repousa em túmulo da autoria do mestre escultor Lagoa Henriques.

Não longe está o cemitério Alemão, discreto e menos monumental, onde se fazem sepultamentos segundo o rito judaico. Algumas belas igrejas são de destacar neste aglomerado populacional, entre elas a de Santa Isabel, do séc. XVIII, e a catedral neogótica do Santo Condestável, em cujo altar-mor estão depositados restos mortais do santo e cavaleiro medieval português, vindos do mosteiro do Carmo. Enquadram-no lindos vitrais de Almada Negreiros e, no paredão frontal, está uma pintura a fresco, de belo efeito decorativo. Possui anfiteatro e outros grandes espaços subterrâneos, sob a cripta. No subsolo e à superfície do bairro correm as galerias do Aqueduto das Águas Livres, do séc. XVIII, importante obra de abastecimento de água a Lisboa, mandado construir por D. João V. Termina numa magnífica Mãe de Água, já perto do Rato, na R. das Amoreiras, ao cimo da qual estão dois belos palacetes, um dos marqueses de Anadia o outro a Casa-Museu Veva de Lima, que pertenceu à família Ulrich. Ambos coabitam com os modernos edifícios do Plaza e do Centro Comercial Amoreiras, formando um excelente núcleo arquitetónico e, no 13º andar deste último, existe um miradouro com grande amplitude de vistas sobre a cidade e a Outra Banda. No imponente fecho do Aqueduto há um depósito em pedra que contém milhões de litros de água.

Os gigantescos arcos do Aqueduto, lançados sobre o Vale de Alcântara, são um dos ex-libris de Lisboa e apresentam, junto ao Liceu Francês, ao fundo da Ferreira Borges, um dos seus mais magnificentes aspetos. Campo de Ourique é célebre pela qualidade do seu pão e bolos, o que não admira, visto ter sido uma importante região moageira. Ainda se vê ali, um Alto dos Sete Moinhos, onde restam algumas ruínas destes engenhos, inteligentemente adaptados a residência. Não perca os pastéis de nata e de outras especialidades, entre elas os de chocolate. A par dos doces, o bairro é rico em pequenos restaurantes, onde se serve excelente comida tradicional portuguesa. As pessoas de gosto mais exótico têm, também, restaurantes indianos, chineses ou japoneses. No Mercado Municipal, ao lado da igreja do Santo Condestável, está um excelente recanto de pequenos restaurantes de comida portuguesa ou internacional, onde o ambiente é jovem e de grande alegria. Pode comprar peixe, carne ou legumes frescos, mas também os pode consumir aí ou levar para casa. Um pouco por todo o bairro há pizarias e churrasqueiras de carne e peixe grelhados no carvão.

Bem no centro de Campo de Ourique a velha Padaria do Povo constitui um recinto típico, em parte situado ao ar livre, onde se comem bons petiscos e onde se canta o fado. Se gosta de danças de salão pode divertir-se até altas horas num ambiente popular- -erudito, de grande alegria, nos Alunos de Apolo, a catedral portuguesa da dança. No prédio onde está instalada esta sociedade recreativa existe um grande salão de baile, dois pequenos “dancings” e um bar onde se servem deliciosos petiscos. Cá fora, na rua, funcionam outros pequenos restaurantes de comida portuguesa, entre eles a Adega Típica da Madeira, que serve bem as especialidades daquela ilha portuguesa do Atlântico. Nas suas deambulações pelo bairro não deixe de admirar, junto à igreja do Santo Condestável, uma grande afloração de rochas sedimentares, com trinta milhões de anos. O sítio foi preservado para documentar o fundo do mar que, em épocas glaciares, cobria aquela zona.

Não perca, igualmente, o aquartelamento militar do séc. XVIII, situado a meio da R. Ferreira Borges. Foi edificado e serviu às tropas do Conde de Lippe, constituindo um belo documento sobre o intercâmbio entre portugueses, ingleses e alemães nas lutas pela supremacia na Europa. À noite ou de dia pode frequentar o Jardim da Parada, coração do bairro onde, há séculos, a soldadesca ensaiava as suas marchas. Existem ali botequins e um coreto onde, às vezes, atuam grupos musicais. Se já tiver esgotado tudo quanto Campo de Ourique tem de bom apanhe o elétrico 28, junto ao cemitério dos Prazeres ou numa das paragens da rua. Inicia aí, por pouco dinheiro, uma esplêndida viagem de mais de uma hora, se não parar, através do centro de Lisboa, podendo deter-se na Bica ou no Chiado, seguindo até à Graça. Passará pela românica Sé Catedral e do Tejo, de Alfama e da Outra Banda. Pode subir até ao Castelo de S. Jorge, visitar São Vicente de Fora e o Panteão Real ou o Panteão Nacional em Santa Engrácia. Volte à noite a Campo de Ourique, no mesmo elétrico, em sentido inverso e jante num recanto deste acolhedor bairro de grande encanto e população fraterna.

Fonte: Boletim Informativo da Junta de Freguesia N.º 7 | DEZ 2016/JAN 2017

Por: Luís Oliveira Nunes

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