Outubro 21, 2018

A Panificadora Mecânica, onde de pão se fez história

Campo de Ourique está desde há muito associado ao fabrico do pão. As referências ao cultivo de cereais e sua transformação num alimento considerado essencial à população, remontam ao século XVIII.

Na passagem para o século XX, o fabrico do pão dava os primeiros passos na mecanização, ao mesmo tempo que tentava adaptar- -se às medidas impostas pelo Estado. O número excessivo de padarias e a falta de condições de higiene nos estabelecimentos, e o desconhecimento dos modernos processos de fabrico, eram algumas das questões que o Governo tentava solucionar.

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É neste contexto que em 1902 surge, na esquina entre a Rua de Campo de Ourique, e a Rua de São João dos Bem Casados (atual Rua Silva Carvalho), a Panificação Mecânica, então designada por Fábrica Mechanica de Pão, um dos primeiros estabelecimentos em Lisboa onde o fabrico do pão era inteiramente mecânico. A iniciativa parte da Companhia de Panificação Lisbonense, instituída nesse mesmo ano. O seu objetivo era, ao reunir padeiros e padarias, combater as dificuldades sentidas por esses profissionais e a forte concorrência que existia em Lisboa.

 Os elementos decorativos, tipo «Arte Nova», escolhidos para a padaria tornaram-na em algo único

A Panificação como um dos primeiros centros industriais de fabrico de pão tornou-se desde logo num estabelecimento modelar. Em 1915 a Companhia Nacional de Moagem adquire a fábrica e instala no piso térreo do edifício uma padaria com venda ao público. Os elementos decorativos, tipo «Arte Nova» escolhidos para a padaria tornaram-na em algo único, destacando-se no bairro e na cidade.

Em Portugal a Arte Nova não teve o impacto que encontramos em França, país de origem. No entanto, o desenvolvimento de uma nova linguagem decorativa concretizada sobretudo através do trabalho do ferro, madeira, vidro, cerâmica e de algum modo na arquitetura, através da decoração das fachadas, é assinalada no contexto nacional com exemplos paradigmáticos como o da Panificação Mecânica.


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No exterior o estabelecimento destaca-se pela montra na qual se faz uma articulação inovadora entre o ferro e o vidro e entre a função e a decoração. Nesta estrutura quadriculada revestida a vidro, abrem-se portas e janelas que iluminam o interior. Aí o destaque vai para os azulejos da fábrica de Rafael Bordalo Pinheiro, responsável pela renovação da decoração cerâmica em Portugal, principal fonte de difusão da Arte Nova no nosso país. Os azulejos apresentam motivos vegetalistas, típicos da Arte Nova, destacando-se aqueles onde figura o trigo, motivo intimamente ligado à função do estabelecimento.

A montra faz uma articulação inovadora entre o ferro e o vidro 

A harmonia com que os azulejos se combinam com o ferro, com os estuques trabalhados do teto, com o vidro (nas janelas, nos espelhos que revestem as colunas, e no lustre), e com a madeira trabalhada dos capitéis, tornam a Panificação num espaço único. Apesar do crescimento da empresa, o ambiente descrito permaneceu quase intocado até à atualidade. Este facto valeu-lhe a classificação como Imóvel de Interesse Público, em 1983, e muito recentemente, a merecida categoria de «Loja com História» que valoriza a preservação da sua função e dos elementos decorativos que tornam este estabelecimento único na cidade.

Texto: Susana Maia e Silva, Mestre em História da Arte Contemporânea

Fonte: Boletim Informativo da Junta de Freguesia N.º 9 | JUN/JUL/AGO 2018

 

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